Shirley Paes Leme: Microhistórias Diárias

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Curador: Ricardo Resende
Abertura: 30/08/2014, 11h00 - 17h00
Exposição: 01/09 - 11/10/2014

Texto
Luz vaga luz
 
 
Pequenas coisas. Gestos curtos. Pensamento rápido. Um dia atrás do outro. Fala mansa que nos conta pequenas histórias diárias reais e imaginárias do cotidiano. Histórias ou estórias que nem fazem sentido ou que fazem sentido sem terem sentido, como na poesia de Manuel de Barros, que rompe com a normalidade. Sua narração é a poética do absurdo ao compor com palavras discordantes a doença delas. Seriam despropósitos semânticos o que fazem os artistas?
 
O homem é um contador de histórias. Contar e ouvir histórias, inventar e ouvir narrativas imaginárias nos tornam mais humanos . As nossas mentes vagueiam o tempo todo pelo mundo das histórias e estórias, e a arte é um dos meios de que o ser humano dispõe para narrar. Não à toa as artes visuais, a dança e o teatro se misturaram com a literatura e a poesia, e ao misturar a literatura com a fotografia em movimento para dar sentido aos sons, a maior e mais completa de todas as artes foi inventada. O cinema (narrativo) dá o contorno a tudo na arte.
 
Shirley Paes Leme é uma multi-artista na melhor acepção da palavra. É escultora, gravadora, desenhista, pintora e professora. Produz instalações, desenhos, vídeos, objetos, pintura, trabalha com as palavras  e ensina. 
 
Quando pinta não usa tinta. Sua “matéria” pictórica pode ser a fumaça e sua inspiração pode vir de observar uma vela acendida ou até entrar em uma noite escura para observar as luzes fugazes dos vagalumes que vagueiam pelos pastos, campos e matas dos interiores do país. Extrai poesia visual de pequenas coisas e gestos no cotidiano. Um jogo de forças e emoções só percebidos pelas sutilezas de se olhar as coisas e os fenômenos do mundo. 
 
A artista faz esculturas com pequenos gestos, melhor, com os que lhe são dados no cotidiano. Pode ser um galho retorcido, uma corda amarrada a uma árvore que acaba-se fundindo com o tronco ou cipós entrelaçados, cordas, arrames, terra, argila e velas.
 
Quando trabalha com as velas não é no seu estado industrializado, uma igual a outra. Também não é a matéria que interessa, mas sim as formas que consegue ao queimá-las. É isso que busca na queima das velas. Encontra as suas diferenças quando perdem a forma moldada. Ao queimar transformam-se pelo fogo, derretem e se contorcem com o calor gerado pela chama que elas próprias alimentam. Depois de apagadas e já disformes, os restos das velas são fundidos no bronze. A matéria retorcida transforma-se em formas escultóricas feitas desse metal que, ao ser polido fica dourado e reluz. Esculturas que provocam e seduzem o toque e o olhar. O brilho é tanto que parecem querer voltar para o estado imaterial do fogo e da luz. A matéria do minério desaparece sob a camada do brilho.
 
 
Pode-se também observar no conjunto de sua obra que a artista é de acumular coisas e repetir gestos. Na instalação intitulada Duração dos Dias, traz para a exposição mais de uma centena destas pequenas esculturas fundidas dos restos de cera das velas e distribuídas sobre uma grande mesa, como em um “cemitério de luz”. O dourado espalha-se ao reluzir naquela matéria inerte, densa e pesada.
 
Acender e apagar. O trabalho é sobre o tempo, a transformação, o fogo, a luz, matéria sólida, matéria líquida, o passar da luz para a escuridão e o ressurgir neste material brilhante, sólido, frio e duro. 
 
Aqui parte de uma forma anterior definida como objeto simbólico, a vela, para agora utilizar-se de outra, retorcida, que “significa” o esvaziamento da sua forma. 
 
O que resta acumulado ali é a memória da luz da qual todas aquelas esculturas vieram.
 
Este trabalho, ao mesmo tempo que contemplativo, parece estranho. Provoca estranhamento, como a poesia de Manuel de Barros e os contos de Clarisse Lispector,  como já dito;  “brinca” com a combinação de palavras desconexas e frases despropositadas, sem sentido imediato. 
 
“Coisas claras me noturnam”, escreveu.
 
Na instalação Duração dos dias, é de ajoelhar-se e olhar bem de perto para que se possa reverenciar a memória daquelas pequenas esculturas disformes. Cada uma traz a lembrança da chama que queimou o pavio que é a ligação do fogo à matéria de combustão. 
 
Despropósitos poéticos visuais com palavras e esculturas saídas do nada, que representam o vazio e o oco, se as observarmos bem.
 
O que restou da queima das velas foi uma pele de parafina que é o rastro do fogo, da queima e, portanto, do vazio. 
 
Palavras e esculturas que deflagram o mundo do sensível. Blocos semânticos, linguagem do absurdo, acumulação de vivências, formas e gestos.
 
A artista provoca um turbilhão silencioso de sentidos na sala expositiva, ao trazer para as paredes junto a estas esculturas frases fundidas em bronze extraídas de poemas de Manuel de Barros e contos de Clarisse Lispector. 
 
São como os haikai, poemas curtos carregados de significados. Palavras que nos fazem refletir de forma abstrata sobre a contradição das coisas e das vivências e que quando ajuntadas, ativam a imaginação. 
 
Shirley Paes Leme propõe uma reflexão através da escrita. Sente a necessidade de se comunicar pelas palavras ao lhes dar formas. 
 
É também pela grafia e o volume dessas palavras levadas para as paredes da sala expositiva que se comunica. 
 
O desenho de uma letra, de uma palavra e de uma frase lhe interessam da mesma forma que os seus significados. 
 
O que lhe interessa é a relação das palavras com as coisas. Não são óbvias. Não são visíveis. São abstratas. O mesmo que dizer “coisas claras me noturnam”. 
 
Frases e palavras “doentes” que falam de coisas que não fariam sentido e que pela desconexão nos provocam a imaginação. Precisam de tempo para fazer sentido. 
 
Sentido que não está apenas na leitura da palavra, mas na junção de duas, três, quatro palavras que invertem, subvertem, transformam e provocam dúvidas visuais, pois lidam com a metamorfose das palavras e das coisas. Rompem com a normalidade.
 
 
Em meio a quase quatro décadas de produção artística, percebe-se uma coerência formal e de interesse pelas mesmas estruturas e materiais que são observados já nas fotografias da série Arquitetura vernacular, de 1975. 
 
Fogo, fumaça, gravetos, picumãs, cuspe de cupins, pólen de flores, nódoa de plantas, fungo de frutas e resíduos de comida. Luz, palavra, acúmulo e repetição. As linhas e suas confluências. Estes são elementos materiais e visuais recorrentes na obra da artista desde os anos 1970, quando começou a produzir. 
 
Muitos desses elementos que compõe a obra de Shirley Paes Leme estão ligados à memória de sua infância vivida no interior de Minas Gerais. Boa parte dos trabalhos enfatiza o pequeno gesto, o volátil, o efêmero e o cotidiano. A artista aborda o tempo e a fugacidade do tempo.
 
Os materiais que usa para realizar os seus trabalhos são inusitados para uma vida urbana contemporânea. Podem gerar algum incômodo por lidar com questões de memória e do passado. 
 
A “coleta” desses materiais brutos vem sendo feita desde o começo de sua carreira, o que torna a sua obra bastante atual e à frente do interesse que percebe-se nas questões da natureza na arte contemporânea. 
 
Trabalha com coisas de aparência precária e pobre e, de certo modo em desuso.
 
A artista insiste no uso desses materiais relacionados à natureza, ao mundo natural, como o picumã, a teia das aranhas enegrecida pela fuligem, pelo pó, pela fumaça e a luz dos vagalumes. 
 
Tem a necessidade de falar e de contar fatos e acontecimentos que se misturam com suas pesquisas de certos aspectos da realidade. Realidades que nos afetam como o fogo, o ar e a água. Nos devolve esses elementos trazendo-os do mundo real para o imaginário de sua obra. Uma outra realidade. 
 
A artista com seu ‘jeito mineiro’ de forte sotaque, traz uma diversidade de trabalhos em suportes e linguagens para esta exposição Microhistórias Diárias. Reforça aqui o caráter experimental de sua produção plástico-visual. 
 
Um trabalho serve de contraponto ao outro. 
 
Já Luz Viva Luz, que também faz parte desta exposição, em outra sala há uma visão do mundo natural. Um trabalho que trata da magia da formação do mundo natural e tecnológico.
 
Novamente dois universos contraditórios. O mundo tecnológico que agride o natural. 
 
Nestes trabalhos em que mistura o tecnológico com o mundo natural, a artista discute duas formas de ver o mundo. 
 
Aquela que respeita a natureza, que a contempla com reverência, uma visão mais próxima da cultura oriental. 
 
Esta maneira de pensar e agir está em harmonia com o  mundo. 
 
A outra, o contraponto, é aquela em que o homem tenta dominar a natureza, o mundo tecnológico que provoca transformações, que destrói, visão do homem ocidental, sempre em conflito, brigando consigo mesmo. 
 
Um outro trabalho que compõe esta instalação  simula o fenômeno das luzes dos vagalumes que polvilham as noites escuras das roças, dos fundos das quintais das casas no interior do país.
 
Das ruas das pequenas cidades que ainda guardam uma relação direta com a natureza. Mas também aqui há referencia às luzes dos celulares que, como a dos vagalumes, cintilam no dia e na noite das cidades. Luzes levadas pelas mãos dos passantes.
 
Este é um trabalho da afetividade pelo mundo que só existe e faz sentido para aqueles que têm na memória os momentos em que se depara com uma dessas noites densas, pesadas e não iluminadas pelas luzes elétricas. São os vagalumes que iluminam as noites no campo.
 
Vem das lembranças de infância, quando se olhava através da janela o fundo do quintal na escuridão. A única fonte luminosa vinda de dentro da noite era aquela dos pequenos insetos que têm a dádiva de trazer luz para a escuridão da noite. 
 
Este parece ser o maravilhoso da natureza. Um fenômeno para o qual não há explicação. Um inseto que tem luz própria e que ilumina. 
 
luz vaga luz é um trabalho em caixa de fundo preto com leds sincronizados eletronicamente com sons de celulares, acendendo e apagando de acordo com a  programação de cada peça.
 
Um céu noturno coalhado por luzes que simulam a dos vagalumes. É um trabalho que também usa recursos tecnológicos e se contrapõe aos primeiros da sua obra feitos de coisas e formas naturais. Mas, mesmo feito de leds e sons eletrônicos, ainda assim, trata do mundo natural ao simular as luzes cintilantes e os sons dos vagalumes. 
 
"o instante-já é um pirilampo": a frase surge na parede da sala de exposição fundida em bronze enegrecido. “tremeluzente como os instantes”, também citação de Clarisse Lispector, que fala do instante e da repetição, das experiências vividas.
 
“Vagalume tem tem, tua mãe tá aqui teu pai também. Vagalume tem tem, tua mãe tá aqui teu pai também...“ canção que ecoava entre as crianças que brincavam nas noites mornas de muito tempo atrás. Desaparecia entre os gritos que seguiam os vagalumes no negro da noite adentro.
 
A exposição conta ainda com a projeção de vídeos. 
 
Um deles, não tenho outras palavras para defini-lo, é suave e brutal ao mesmo tempo. Contundente, estabelece vínculos contraditórios entre os mesmos vagalumes que vagueiam pela noite e as bombas que caem sobre uma cidade. 
 
Visão corriqueira no mundo midiático e em guerra constante. 
 
São as luzes singelas, repousantes dos vagalumes e as agressivas luminescências dos bombardeios nas guerras com suas ogivas cortando tragicamente os céus noturnos de uma cidade. Explodem em um clarão que cega suas vítimas. 
 
O vídeo (o cinema) na sua completude fala da natureza essencial e do homem em conflito consigo mesmo. O homem que se distancia da sua própria natureza e a agride.
 
Rajadas e explosões na forma de lampejos que não pertencem à natureza essencial. 
 
Esta poluição luminosa leva a uma perturbação dos padrões naturais da percepção de luz e da escuridão, interfere e modifica inapelavelmente tudo nos ecossistemas e em nossa percepção do mundo e da realidade. 
 
É melancólica a microhistória cinematografada, a desses dois mundos contraditórios.  
 
O bugre só pega por desvios, não anda em estradas. Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros. Há que apenas saber errar bem o seu idioma, nos conta Manoel de Barros. Os trabalhos de Shirley Paes Leme são feitos com desvios e surpresas. 
 
No gesto de gravar incerto e lento com fumaça. No de fundir os restos de uma vela em bronze que tem um tempo para chegar na forma desejada. Ao simular as luzes de um inseto luminoso. Ao videogravar a noite iluminada por vagalumes e bombas. 
 
A artista, assim, com simplicidade, concede importância ao meio ambiente natural, as coisas do dia a dia, os conflitos do cotidiano, à luz, à forma e ao tempo.
 
A obra trata de um elogio à luz, à sombra, ao tempo das coisas, aos fenômenos naturais e contraditórios, os não naturais, os conflitos. Por fim, Shirley Paes Leme trata do curso da vida. 
 
 
Ricardo Resende
Curador
Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, Rio de Janeiro.