Unânime Noite

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curadoria de Bernardo José de Souza

artistas: Anna Franceschini, Antoine Guerreiro do Divino Amor, Cínthia Marcelle, Cristiano Lenhardt, Daniel Jablonski, Daniel Jacoby, Daniel Steegmann Mangrané, Débora Bolsoni, Eduardo Haesbaert, Elena Narbutaite, Érika Verzutti, Felipe Braga, Farnanda Gassen, Gustavo Torres, Luiz Roque, Marcos Chaves, Marilá Dardot, Manoela Medeiros, Matheus Rocha Pitta, Michel Zózimo, Pablo Accinelli, Pablo Ferreti, Pedro Moraes, Pipa, Raimundas Malasauskas, Rodolpho Parigi, Romain Dumesnil, Saint Clair Cemin, Sara Ramo

abertura: 19/05/2016
exposição: 20/05 - 02/07/2016

Texto
Inspirado nos jogos surrealistas e nas prosas borgiana e cortazariana, a mostra abre no dia 19 de maio na Galeria Bolsa de Arte com mais de 30 obras – muitas delas inéditas - que questionam os limites da linguagem e a autoria num jogo instigante.
 
Um romance-exposição, em que as obras sejam capítulos que possam ser lidos de forma interdependente, na ordem criada pelo leitor. Essa estrutura foi o ponto de partida da exposição Unânime Noite, que o curador Bernardo José de Souza apresenta a partir de 19 de maio na Galeria Bolsa de Arte (Mourato Coelho, 790), em São Paulo. A mostra traz cerca de 30 pinturas, esculturas, textos, instalações, desenhos, fotografias e filmes de 28 artistas. O conjunto resulta num itinerário de múltiplos percursos possíveis que atravessa questionamentos sobre a autoria, a narrativa, o alcance dos sentidos e até a existência de realidades às quais não temos acesso.
 
“Mais do que uma curadoria no sentido tradicional, a ideia é apresentar um jogo que se inspira em duas obras: O Jogo da Amarelinha, do argentino Julio Cortázar, e o jogo dos surrealistas Cadavre Exquis [“Cadáver Esquisito” na tradução, que consistia em colocar na mesma frase palavras inusitadas por meio de regras ligadas ao automatismo e à atividade coletiva. Cada verso era acrescentado sem ler o anterior, subvertendo o discurso literário tradicional].
 
O “primeiro capítulo” ou primeira provocação de Unânime Noite (como no jogo dos surrealistas) foi escrito pelo artista, escritor e curador lituano Raimundas Malasauskas. Bernardo José de Souza trabalhou com o artista na 9ª Bienal do Mercosul, em 2013, e o convidou pelo caráter lúdico, engenhoso, filosófico e inesperado de seus trabalhos, como a sessão de hipnose que promoveu junto a Marcos Lutyens na Documenta de Kassel de 2012. “Malasauskas tem uma pesquisa profunda a respeito do tempo e de questões místicas às quais damos pouca atenção”, diz Souza. O texto é apresentado na exposição em um áudio que novamente remete à ideia de transe, uma quase hipnose.
 
Definido o ponto de partida, Bernardo José de Souza enviou aos artistas o áudio e iniciou então um processo orgânico e intenso que resulta em um conjunto de cerca de 28 artistas, dentre os quais estão nomes como Anna Franceschini, Cristiano Lenhardt, Daniel Jablonski, Érika Verzutti, Felipe Braga, Luiz Roque, Marcos Chaves, Sara Ramo, Daniel Steegmann Mangrané, Marilá Dardot, que apresentarão obras já existentes e outras que foram criadas especialmente para o projeto. 
 
Como no Jogo de Cortázar, há uma ordem de leitura proposta pelo curador, mas há também a criada por cada espectador, convidado a desconstruir a ideia de história única ou totalizante e questionando a noção de discurso e autoria. Ao final, a exposição se estrutura através de uma narrativa de ficção científica e mistério criada em parte pelo percurso do visitante, em parte pelas sugestões do curador, guia nesse labirinto ficcional que selecionou e relacionou artistas e obras que integram o projeto.
 
Outro aspecto que Unânime Noite propõe é lançar um olhar para a história como uma construção para forjar narrativas, versões, personalidades e identidades. “Há zonas de sombra na construção tanto da nossa ficção pessoal quanto dessa ficção que é a chamada realidade”, diz o curador. Para trabalhar tais aspectos, foram convidados nomes jovens e que trabalham com a literatura, com narrativas abstratas e fragmentadas que se articulam de forma instável, e até que ressignificam objetos cotidianos. Entre eles, Daniel Jacoby (Peru, 1985), Daniel Steegman (Barcelona, ESP, 1977), Felipe Braga (Rio de Janeiro, RJ, 1982), Michel Zózimo (Santa Maria, RS, 1977) e Pablo Accinelli (Buenos Aires, Argentina, 1983).
 
O nome da exposição surgiu da primeira sentença de um conto de outro argentino, Jorge Luis Borges, “As Ruínas Circulares”. A influência dos romances policiais e da ficção científica e o gosto pelo não-linear nas narrativas do escritor, embaralhando autoria, também se mostra presente na exposição. A começar pela figura do curador-autor, que na sua proposta de construção de um sentido fragmentado, considera a aleatoriedade também, tão cara a sistemas de jogos na construção de sentidos.
 
A exposição propõe ainda a experiência da existência de espaços intermediários sobre os quais a palavra não dá conta. Tais interstícios de nossa percepção de mundo, do que os sentidos humanos não são capazes de compreender – ou mesmo desprezam – aparecem na exposição também no trabalho do argentino radicado no Brasil Pablo Accinelli. Em outros momentos, pesquisa acadêmica e prática artística se fundem, como no projeto “Sono Louco – quem vigia o vigia?”, de Daniel Jablonski: um estudo ficcional sobre o tempo do relógio apresentados em forma de instalação, no qual o artista se propõe a se autodiagnosticar com um distúrbio de sono ainda desconhecido. 
 
O instável, o inexistente, o imaginado também têm espaço em Unânime Noite. Daniel Jacoby, peruano que vive na Europa apresenta um áudio sucinto e elíptico que provoca a criação de uma imagem mental. Pedro Morais, brasileiro radicado na Europa, apresenta uma escultura que a cada projeto que participa se transforma em um novo exemplar, se metamorfoseando. Cristiano Lenhardt evoca o que existiu, mas foi apagado da memória coletiva a partir de um conjunto de telas em branco acompanhadas de pincéis feitos com chumaços de cabelos humanos. E a italiana Anna Franceschini, que trabalha com cinema e fantasmagorias, traz um trabalho no qual se propõe a dar forma a algo evanescente. Artistas de estaturas diversas articulados de forma a questionar o passado e o futuro a partir do presente.