Elogiamos a casa que se abre a perder de vista

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curadoria: Mario Gioia

artistas: Alexandre Wagner, André Lichtenberg, Bruno Drolshagen, Bruno Miguel, Daniel Moreira e Rita Castro Neves, Ding Musa, Dirnei Prates, Gustavo Torrezan, Julia Milward, Layla Motta, Leka Mendes, Leticia Lampert, Maíra Vaz Valente, Manuela Costa Lima, Marco Maria Zanin, Marina Camargo, Renata de Bonis, Shirley Paes Leme, Vera Chaves Barcellos, Xadalu

abertura: 02/12/2017
exposição: 04/12/2017 - 28/01/2018



Texto
Elogiamos a casa que se abre a perder de vista

Uma bandeira que tremula timidamente em uma cidade enevoada, em meio a edificações algo aterrorizantes. O mesmo amálgama urbano, só que visto por outro ângulo, a atestar uma urbe de fluxos quase estrangulados. Detritos da construção civil mesclados a imagens de devastação. Chuva ácida, poluição, temor nuclear. Cacarecos dos escambos, trocas e vendas de cunho popular, como a dar o tom num panorama pré-apocalíptico. O ritmo de sobrevivência que persiste, apesar da falta da própria e legítima terra e dos incessantes conflitos advindos da luta por território. Paisagem-território que não deixa de se descortinar pelo âmbito político.
Uma exposição coletiva a investigar a paisagem sendo realizada na São Paulo de 2017 e 2018 não encaminharia uma leitura harmônica, otimista e leve. Elogiamos a casa que se abre a perder de vista reúne 21 artistas de variadas gerações e investigações multifacetadas, dando continuidade a discussões anteriormente levantadas e vistas em Ao Sul, Paisagens, mostra ocorrida na Bolsa de Arte de Porto Alegre no final de 2013. Se os ânimos parecem estar quase em guerra quatro anos depois pelo país, agora, na Bolsa de Arte paulistana, é desafiador construir uma nova teia de relacionamentos, trocas e exibições sensíveis ao outro, no campo visual contemporâneo. Abordar também um dos gêneros clássicos da história da arte abre um novo leque de inquietações, certamente, ao mesmo tempo em que trabalhar de novo com alguns artistas que estiveram no recorte do RS é recompensador.
O título da exposição vem da incontornável leitura de A Invenção da Paisagem, de Anne Cauquelin. Referindo-se à teoria dos jardins, a pensadora francesa cita textos de Horácio (65 a.C.-8 a.C.), poeta e filósofo epicurista da Roma Antiga, incluindo a Epístola X – de onde sai o excerto que dá título à exposição. “São a dispensa e o dispêndio que designam o jardim, e não a costa e o mar, o longínquo e a contemplação do mundo no seu todo. Fruição do ‘conveniente’, da suspensão avaliada, de um fato feito à medida do seu proprietário. Fruição de uma parte de um fragmento escolhido da natureza e não a sua metáfora condensada”1, discorre Cauquelin.
Tal perspectiva fragmentária é trabalhada em Elogiamos… a partir, por vezes, desses escombros urbanos, descartes em materiais ralos de uma sociedade pós-industrial em alto ritmo de transformações, fazendo com que o consumismo visto, por exemplo, na pop art seja hoje quase uma inocente visada. “Pois a onipresença da precariedade na arte contemporânea faz que esta efetue, pela força das coisas, um retorno às fontes da modernidade: o presente fugitivo, a multidão movente, a rua, o efêmero”2, escreve Bourriaud em seu fundamental Radicante.
Reflexo Distante, de Marina Camargo, pode servir como um dos guias da exposição de hoje. Toma partido da sua forte presença física (industrial, destaca-se) junto do registro fotográfico de céus (uma representação). O tridimensional lida com o ver e não ver, a sedimentação e a incompletude, a materialidade e o desmanche dessa paisagem, que é fortemente não natural, construída, cultural. Numa imagem fotográfica que também se destaca pela técnica, André Lichtenberg utiliza o registro de casas à beira-mar captadas por uma luz noturna de longa exposição para dar às corriqueiras construções um ar onírico e misterioso. Já Layla Motta percorre as Ilhas Britânicas para traduzir em imagens carregadas de enigma antigos relatos de bruxaria e ocultismo, não sem friccionar tempos atuais (pensemos em cruzadas de lemas mais que duvidosos) com o vernacular, o arcaico. A série Vento, de Dirnei Prates, tem na materialidade tíbia e efêmera um de seus atributos, com polaróides (ou seja, material fotográfico analógico e de durabilidade parca) esmaecidas, mas cuja captação foi feita faz pouco. O panorama se abre para cruzamentos de tempos e espaços calcados em interstícios e meios-tons. Julia Milward inscreve, em seu políptico: “Assim, no vagar, experimentar o espaço através do aparato fotográfico, seguindo passadas alheias, arrancando as coisas mais ou menos vistas”. Provas materiais das passagens (o deserto) crava a deriva da artista nessa paisagem demasiadamente particular, mas que se reveste do humano como vestígio, índice, rastro. E os lugares pictóricos de Alexandre Wagner e Roberta Tassinari seguem estratégias diversas, porém se assemelham em atestar mudanças de fases. Árvore, de Wagner, se beneficia da escala de certa ambição, da zona fronteiriça entre figuração e abstração, das diferenças de procedimentos para obtenção da cor e de outras qualidades da linguagem. A catarinense Roberta veio para SP e desenvolveu com persistência as pinturas sobre materiais diversificados, e o concreto, da grande metrópole, acabou por se impor. Não por uma opção cinzenta, mas talvez pelo encontro com materiais banais, de cromatismo marcadamente artificial (made in China tipo 25 de março, em SP, e Saara, no Rio) e que gera campos de cor de grande movimento.
Os cariocas Bruno Drolshagen e Bruno Miguel apresentam em Elogiamos... tridimensionais, porém amparados com decisão nas respectivas pesquisas em pintura – aqui vista num campo ampliado, expandido. Os objetos da série A Cristaleira, de Miguel, são vistos no espaço como uma maquete de cidade, uma urbe em projeto, uma topografia arquitetônica pontuada por cumes de vidro, superfícies resinadas e copos rechonchudos esparramados na base. Quando alinhados, a natureza-morta saltava ao olhar do observador. Hoje, o passante mira por cima e ele próprio parece uma ameaça a essa formação vítrea, de materialidade de pouca definição, contudo multicolorida e brilhante. Drolshagen, em Bach e Geográfica Universal, recorre aos mercados de catadores da Lapa carioca, que, ao fim do dia, trazem quilos de brinquedos, revistas e objetos dos mais diversos cuja destinação última era o lixo. Comprados pelo artista, se transmutam, com a utilização do concreto, e alargam pelo espaço os fragmentos das superfícies pictóricas trabalhadas a óleo pelo autor no labor do ateliê, em outra ponta de sua produção.
Paisagem-território, foco de divergências, combates, desentendimentos. O paulistano Ding Musa apresenta séries inéditas feitas na Palestina, como o vídeo gravado em Al Janiah, na Cisjordânia, cuja câmera faz um tour de 360°, do alto de uma colina, para capturar as pequenezas de um dia a dia sempre vigiado e jamais pleno de normalidade. Pela câmera, vemos assentamentos judaicos evidenciar sua presença na paisagem e revelar que a paz é algo muito longínquo naquele contexto. O livro de artista Love for the land compila fotografias do artista na mesma região. A abordagem de Ding escapa de um fotojornalismo óbvio e desgastado (que optaria por retratos e abordagens reiterativas) e exibe, sim, evidências de um território não livre, rasgado, ferido, tanto pelos aparatos de segurança impostos na região como pela clara tensão entre vizinhos. No entanto, a geopolítica internacional não é necessária para trazer à tona disputas latentes. Um simples copo americano pode conter um universo. No objeto de Gustavo Torrezan, a terra dos guaranis (que vivem nas cercanias do pico do Jaraguá, onde estão instaladas grandes antenas de TV) encerrada em utensílio doméstico nos remete à falta desse direito básico para tal população. Se em SP os indígenas são marginalizados e quase são ‘invisibilizados’, no Rio Grande do Sul a mesma sina se repete. Xadalu, que começou como artista de rua, cria intervenções de monta para destacar a ancestralidade do território indígena e nos explicita quem são os reais invasores.
O contexto ecológico de outrora ainda reverbera, em especial por resultar em cinzento horizonte por conta do fracasso das instâncias diplomáticas no tocante ao meio ambiente. O conjunto de Shirley Paes Leme sobre o ar de São Paulo foi iniciado em 1985 e apreende, de modo visual ainda surpreendente, a poluição que aspiramos todos os dias. Usando enunciados poéticos, Shirley cria curtos-circuitos sobre as construções humanas, a cultura etc junto de registros plásticos de grande atração. A gaúcha Vera Chaves Barcellos, nome-chave do experimentalismo nacional, captura, tal qual um audiovisual que se apresenta paulatinamente para o nosso olhar, os contornos de uma usina nuclear na França. A Guerra Fria parece revestida com nova roupagem, mas os temores de uma catástrofe atômica ainda não se dissiparam. Leticia Lampert, em residência na China  - cada vez mais hegemônica no xadrez do poder global -, cria políptico de delicada tessitura sobre os horrores da destruição de grandes proporções e do desenvolvimento de ritmo desenfreado (destinado a uma congestão próxima). São gritantes os prejuízospara meio ambiente, urbanismo e outros fatores mais ‘civilizatórios’ que a potência se recusa a refletir e mudar. Assim, a poluição domina a paisagem, índice de frágil materialidade para registro, mas sentido, literalmente, na pele da população.
A chave ecológica não é a predominante na obra de Renata de Bonis, mas fenômenos naturais, meteorológicos e de natureza próxima são perceptíveis na produção. O silencioso trabalho Puddle foi colocado ao centro do espaço expositivo e desenha-se, em seu volume esférico de bronze, algo enigmático. A bola de basquete inerte agora, numa de suas faces murchas, armazena água da corrosiva chuva que cai, de tempos em tempos, sobre os paulistanos. Muito lentamente, a tonalidade típica do bronze vai se esvaindo e cria novas texturas, matizes, reentrâncias minúsculas. Água também é fulcral no vídeo, exemplar isolado sobre a paisagem-corpo dentro deste recorte, com o registro de performance de Maíra Vaz Valente em serra fluminense. O líquido tem outra função aqui e, armazenado em pequenos sacos, é alvo da artista por sua ação repetitiva do furar.
Utilizando distintos suportes e abordagens, as peças das paulistanas Leka Mendes e Manuela Costa Lima, além dos artistas estrangeiros agora presentes em Elogiamos... – o italiano Marco Maria Zanin e os portugueses Daniel Moreira e Rita Castro Neves -, apresentam de maneiras menos ruidosas um certo espírito de tempo desconfortável do hoje. Manuela grava com mais delicadeza sua perspectiva de incômodo. Ela constrói, com uma guia de rua descartada, uma banal fita de postes de eletricidade e uma pedra, sua Granada-guia. Disposta agora no cubo branco, oscila entre a atração e a repulsa, a calmaria e o perigo iminente, a cidade das planificações burocráticas e a cidade dos embates reais, à flor da pele. Sua intervenção no jardim é ainda menos ostensiva, mas os elos entre lâmpadas e tubos de cobre também revelam um equilíbrio tênue. Entulho de prosaicas caçambas é reinventado por Leka. Na diversidade de ladrilhos, cerâmicas, blocos, ardósias, ‘tufos’ de cimento e concreto de variadas tipologias, a artista aplica cenas de guerra buscadas na web. A aproximação não é furtiva em mesclar especulação imobiliária e indústria bélica, desenvolvimentismo e estado de agressão, falta de urbanismo e choque de valores. E a Praça da Bandeira, logradouro com status de não lugar de SP, é foco de distintas ferramentas de Zanin e Daniel/Rita e pode fechar uma leitura de Elogiamos.... A fotografia e o vídeo resultam em um profundo estado pessimista. Há a paisagem-palimpsesto, de configurações quase infernais (por Zanin), e existe a paisagem enevoada, cinzenta, algo imaterial e tóxica (de Daniel/Rita), com sua simbólica bandeira a existir parcamente, movendo-se com imensa dificuldade. Paisagem-.

 Mario Gioia, dezembro de 2017
 
1. CAUQUELIN, Anne. A Invenção da Paisagem. Edições 70, Lisboa, 2008, p. 49
2. BOURRIAUD, Nicolas. Radicante. São Paulo, Martins Fontes, 2011, p. 92
 
* Agradecimentos às galerias Aura, Blau Projects, Luciana Caravello, Mamute, Raquel Arnaud e Virgilio.