“Realidade Sonhada” reúne quinze anos daprodução autoral de André Lichtenberg, marcada pela experimentação fotográficaem diálogo com diversas técnicas e linguagens das artes visuais. Em seuprocesso criativo, fotografia, cor e luz se fundem em imagens de grande formatoque evocam atmosferas poéticas e profundas. Na interseção entre fotografia epintura, Lichtenberg convida o espectador à contemplação de paisagens etéreas emelancólicas, capturadas no litoral sul da Inglaterra — país onde o artista vivehá quatro décadas. Suas obras propõem uma experiência meditativa, ao mesmotempo íntima e onírica, em que a realidade se transforma em imaginação visual,guiada por seu olhar atento aos deslocamentos, distâncias e fluxos migratórios.Como comenta Daniele Queiroz, curadora epesquisadora de fotografia que assina o texto da exposição: “Lichtenberg é umartista que acredita no poder do sonho, da caminhada e da utopia. Nascido emPorto Alegre, o artista atualmente vive no Reino Unido. Descendente de famíliaeuropeia, a migração está no cerne de sua família, que chegou ao Brasil vindada Alemanha e Áustria. Anos mais tarde, o artista se tornaria ele mesmo um‘imigrante moderno’ ao decidir fazer o caminho de retorno ao continenteeuropeu. Lichtenberg recorda que seu pai gostava de desenhar paisagens, o queinfluenciaria o modo como o filho viria a olhar a fotografia. Da mesma maneira,foi o olhar poético do pai para a lua cheia que ensinou o artista a olhar paraa noite, a sonhar e valorizar o tempo.”
Realidade Sonhada | André Lichtenberg
A utopia está lá no horizonte.
Me aproximo dois passos, ela se afastadois passos.
Caminho dez passos e o horizonte corredez passos.
Por mais que eu caminhe, jamaisalcançarei.
Para que serve a utopia?
Serve para isso: para que eu não deixe decaminhar.
Eduardo Galeano
A palavra utopia vem do grego, najustaposição do prefixo de negação (οὐ) com a palavra lugar (τόπος). De acordo com a etimologia, podemosconsiderar a utopia como o não-lugar, o lugar que não existe. Porém, se perguntamos ao poema de Galeano para que serve a utopia, ele nos devolve um disparador para o movimento, a caminhada e, em última instância, a fé. Não necessariamente a fé religiosa, mas a crença de que é possível imaginar e habitar mundos outros, com mais comunhão e respeito entre as pessoas e suas culturas. É essa crença na imaginação que dá suporte a André Lichtenberg em Realidade Sonhada, título de sua exposição individual na Galeria Bolsa de Arte, em São Paulo.
Lichtenberg é um artista que acredita no poder do sonho, da caminhada e da utopia. Nascido em Porto Alegre, o artista atualmente vive no Reino Unido. Descendente de família europeia, a migração está no cerne de sua família, que chegou ao Brasil vinda da Alemanha e Áustria. Anos mais tarde, o artista se tornaria ele mesmo um “imigrante moderno” ao decidir fazer o caminho de retorno ao continente europeu. Lichtenberg recorda que seu pai gostava de desenhar paisagens, o que influenciaria o modo como o filho viria a olhar a fotografia. Da mesma maneira, foi o olhar poético do pai para a lua cheia que ensinou o artista a olhar para a noite, a sonhar e valorizar o tempo.
Na série Impossible Utopias, Lichtenberg volta o olhar para o canal inglês que separa Reino Unido e Europa durante o Brexit. Durante as noites de lua cheia, o artista produziu imagens da costa litorânea, alargando o tempo através de longos períodos de exposição da câmera. Tanto em Impossible Utopias quanto na série Full Moon, a noite deixa de servisível na imagem, mas o tempo se faz presente através do movimento das águas edas estrelas, além da construção de camadas de cor e reflexão que nos colocam emum estado meditativo: o que estas águas nos contam? Qual é o tempo e as histórias apresentadas nessas imagens? Estamos em um tempo das incertezas e do sonho. Lichtenberg reflete sobre as travessias, não apenas as realizadas décadas atrás, mas principalmente as atuais, os movimentos migratórios forçadose as noções violentas de bordas e fronteiras. Ao olhar para o mar, o artista secoloca - e nos coloca - em um estado de nostalgia e meditação.
A nostalgia atravessa seu trabalho. Suas fotografias, construídas a partir da união de várias imagens em uma diversidadede detalhes, contém ao mesmo tempo um caráter científico e sonhador, como nasérie Personal Topographies. Lichtenberg, que estudou engenharia, fotografia e artes, flerta com o tecnicismo da câmera que o permite operar em grandes dimensões sem perder a qualidade, ao passo em que mantém o caráter poético esubjetivo de seus horizontes e cidades. Em Window Series, o artista fotografa ajanela do quarto de seus filhos ao longo de seis anos, mais uma vez investigando a noção de bordas e da fronteira entre sonhos e realidade. A janela, assim como a lente da câmera, é o limite que propõe outras paisagens e possibilidades, ainda que escondidas no cotidiano, no “banal”. Essa suposta banalidade é na verdade carregada de estranheza, convidando o espectador aparar e refletir, com sorte desacelerando de sua própria vida moderna, apressada. A oportunidade de distrair-se dentro das imagens opera como mecanismo de pausa e convite à comunhão não apenas com o artista, mas com um tempo lento, pausado. Tempo das coisas que permanecem, mesmo que ligeiramente diferentes: o nascer do sol, a chegada da lua, a mudança da paisagem durante as estações. Um paraíso que pode existir no ordinário das coisas e no coletivo das pessoas. Uma utopia presente, ainda que inalcançável.
Daniele Queiroz, junho de 2025.